Saúde mundial: entre a continuidade pós-colonial, o neocolonialismo neoliberal e a descolonização reducionista
Palavras-chave:
Descolonização, Saúde global, Racismo, Fatores socioeconômicosResumo
Nas últimas décadas, a descolonização e, mais recentemente, a decolonialidade assumiram crescente relevância no campo da saúde global. Intensificou-se o reconhecimento da necessidade de superar padrões coloniais originados na medicina tropical e perpetuados pela saúde internacional. As desigualdades estruturais herdadas do colonialismo continuam a afetar sobretudo populações negras e indígenas nas antigas colônias, evidenciando a persistência de injustiças históricas. Entretanto, o debate sobre a descolonização da saúde global permanece amplamente conduzido por instituições e acadêmicos do Norte Global, especialmente anglo-saxões, limitando uma compreensão efetivamente plural das consequências do colonialismo para a saúde. Este artigo defende que a descolonização, isoladamente, é insuficiente, propondo a decolonialidade como perspectiva mais abrangente. Essa abordagem exige analisar criticamente as estruturas contemporâneas de poder, marcadas pelo neoimperialismo, pelo capitalismo e pela globalização neoliberal, responsáveis pela reprodução de discriminação, desigualdades e opressão em escala mundial. Além disso, sustenta que o debate deve reconhecer os riscos da neocolonização impulsionada pela aristocracia financeira global, cuja crescente concentração de poder político configura novas formas de dominação. O potencial emancipatório da decolonialidade na saúde global depende, portanto, da capacidade de enfrentar, simultaneamente, os legados coloniais e as dinâmicas contemporâneas que perpetuam injustiças estruturais persistentes.
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